'Voltaremos às ruas até dinheiro roubado pelos cartéis ser devolvido', dizem metroviários


Grupos pediram a saída do governador
Geraldo Alckmin, um dos acusados de
ser complacente com cartel / Danilo Ramos/RBA

Sindicato afirma que prisão dos corruptos também estará na ordem do dia de futuras manifestações. Passe Livre gostou do protesto, mas não está predisposto a seguir com mobilização

Tadeu Breda, RBA

“Nossa intenção é continuar”, anunciou o presidente do Sindicato dos Metroviários do Estado de São Paulo, Altino de Melo Prazeres, na noite de ontem (14). Algumas horas antes, uma manifestação convocada pela entidade, e apoiada pelo Movimento Passe Livre (MPL), conseguiu reunir cerca de 4 mil pessoas no centro da capital para protestar contra a corrupção no transporte metroferroviário paulista. “Só vamos parar quando as empresas devolverem todo o dinheiro que foi roubado e quando as pessoas envolvidas forem punidas.”

Altino acredita que “toda a população de São Paulo” está ao lado dos manifestantes que foram às ruas nesta quarta-feira contra os indícios de formação de cartel entre empresas estrangeiras, com a complacência de governos do PSDB, para burlar a concorrência em editais para ampliação do metrô e reforma de trens da CPTM. Mas o sindicalista não quer continuar protestando sozinho. “Tentaremos reunir os movimentos que estão conosco para preparar uma nova manifestação. Queremos definir a data já para semana que vem.”

Na avaliação dos Metroviários, o protesto de ontem foi positivo. “Pessoalmente, gostei da manifestação”, revela Altino. “Seria importante dar sequência.” Agora caberá aos trabalhadores do Metrô convencer as organizações parceiras. O Passe Livre, por exemplo, não parece disposto a mobilizar novamente a população tão cedo. “Da nossa parte, não existe intenção de convocar um novo ato por enquanto”, afirma Nina Cappello, membro do MPL, que também gostou da manifestação. “Mas vamos discutir com as demais entidades caso haja proposta de continuar.”

Fora Alckmin

Apesar de ter sido oficialmente convocado para pedir mais qualidade no transporte metroferroviário paulista, não foram poucos os gritos e cartazes pedindo a saída do governador Geraldo Alckmin (PSDB), um dos políticos que, segundo denúncias da Siemens, teria dado aval para a formação do cartel empresarial no estado. As menções ao tucano foram desde o tradicional “Fora Alckmin” até insígnias mais eleboradas, como “Por 20 centavos derrubamos a tarifa, por 425 milhões derrubaremos o Alckmin”, em referência à quantia que teria sido desviado pelo esquema de corrupção.

“Temos que tirar esse governo, que já deu mostras de que, além da falta de compromisso com a população, está diretamente roubando recursos públicos junto com as empresas privadas para beneficiar essas mesmas empresas e os políticos do PSDB”, reivindicou Zé Maria, presidente nacional do PSTU, partido ligado à Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas) e aos Metroviários. “Para conseguir o impeachment do Alckmin, a primeira tarefa é colocar o povo na rua. Encaminhar para uma CPI na Assembleia Legislativa e ficar esperando é a mesma coisa que encaminhar para uma pizzaria. Não vai adiantar nada.”

No entanto, o Passe Livre vê com cautela os dizeres contra o governador. “De maneira nenhuma somos favoráveis ao Alckmin, temos inúmeras críticas à sua administração, mas cabe a um movimento social que discute os transportes, como é o nosso caso, brigar por uma mudança no funcionamento do sistema, e não apenas pedir a queda do governador”, explica Nina. “O problema é estrutural. Não adianta cair o governo do Alckmin se não mudarmos esse sistema de transporte voltado para o interesse dos empresários. Queremos controle popular dos transportes.”

Siemens

Lideranças sindicais e partidárias também criticaram a maneira como o governador vem tratando as denúncias de corrupção. Na terça-feira, Alckmin convocou a imprensa para anunciar que processará a Siemens, que decidiu revelar o esquema de corrupção no Metrô e CPTM ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Foi a delação da empresa alemã que desatou a crise no Palácio dos Bandeirantes – e que está gerando as novas manifestações. O tucano também tentou tirar o foco da imprensa sobre sua administração dizendo que o mesmo cartel atua em licitações federais.

“Acho que o Alckmin tá confessando já o crime: mesmo sem terem terminado as investigações, ele já declara que vai processar a Siemens?”, questiona Adi Santos Lima, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em São Paulo. “Ele, como cidadão, deveria elogiar a Siemens por ter colocado sua cara na rua. Em sua grande maioria, as empresas escondem essas relações excusas que mantêm com os governos. A sociedade precisa pressionar. Isso pode ser a ponta do icebergue.”

Altino de Melo Prazeres, presidente dos Metroviários, acha que a Siemens sim deve ser processada por ter causado danos ao Erário. “Mas não só a Siemens”, ressalva, “as outras empresas também. Alckmin devia processar o próprio governo do estado, fazer uma investigação a fundo, inclusive dele mesmo. Não é possível um desvio da ordem de R$ 425 milhões, ou mesmo mais de R$ 1 bilhão, como tem sido dito, e que o governo esteja completamente alheio. Se puxar, vai ter muito mais.”

“Falar que vai processar a empresa que está denunciando é fingir que desconhece a existência de um cartel que está funcionando no metrô e na CPTM. E as outras empresas, qual vai ser a atitude dele?”, avaliou Everson Craveiro, presidente do Sindicato dos Ferroviários da Zona Sorocabana. “Esperamos que seja tudo apurado, não somente verificando a responsabilidade dos presidentes da CPTM e do metrô, mas do Alckmin também, porque ele é o chefe maior, ele nomeia essas pessoas. É uma tentativa desesperada de mudar o foco.”
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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