O “mercado” trata casa como mero investimento, não como qualidade de vida

Fernando Brito, Tijolaço

"O Estadão anuncia como “eleitoral” a intenção da Presidenta Dilma Rousseff de estender para uma fatia maior da classe média os benefícios do programa “Minha Casa, Minha Vida”.

Curioso, porque uma das mais graves deficiências das políticas sociais brasileiras, nas últimas décadas, foi ter deixado, exclusivamente, por conta do “mercado” a construção de habitações, tanto para o povão quanto para as classes médias mais simples.

Nos meus 55 anos de vida, vi as gerações mais antigas terem um lar por conta das políticas estatais de habitação.

Meu querido avô, um operário, pagou durante 40 anos a casa modesta, mas digna, em Realengo, ao IAPI, o instituto de previdência dos industriários, num fundo de financiamento formado pelas contribuições dos trabalhadores para a recém criada previdência pública, com Getúlio.

Minha mãe, professora, depois de separada, finalmente conseguiu comprar sua casa pelo instituto dos servidores da antiga Guanabara.

Eu… bem, quando cheguei aos primeiros tempos da maturidade já não havia nada para toda uma geração (e depois outra, e outra leva de jovens) apoiar-se na compra de uma casa.

Foram anos e anos, para mim e para milhões, de alugueis levando pelo ralo boa parte dos nossos salários.

Quando – e se – finalmente conseguimos foi com financiamentos sufocantes feitos via bancos privados, que criaram crise sobre crise de inadimplência no setor.

O Estadão trata, porém, como “eleitoreira” a medida de ampliar um pouco mais as franquias concedidas pelo “Minha Casa, Minha Vida”, como se nos grandes centros urbanos, hoje, não fossem modestas as moradias pouco acima dos 190 mil fixados, hoje, como teto do programa.

Não consegue enxergar o problema humano que está na construção de vidas sem ter a segurança do morar.

É curioso ainda mais porque ocorre no mesmo dia em que o “concorrente” do Estadão, mas parceiro na visão elitista do país, a Folha, publica artigo de Eliane Cantanhêde protestando contra a aplicação aos cartões de débito e aos de crédito pré-pagos, nos gastos nos exterior, as mesmas alíquotas de imposto já existentes para o cartão de crédito comum.

Diz que o Governo está cortando os “brioches” da classe média emergente.
Afinal, o que é poder comprar uma casa perto de comprar bugigangas em Miami, não é?"
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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