Propaganda de Alckmin diz que trem lotado é 'bom pra xavecar a mulherada'

Apitaço na estação Sé do Metrô ontem (24) protesta contra assédio sexual nos vagões superlotados
"Publicidade oficial aparece na Rádio Transamérica em momento em que sociedade repudia 'encoxadas'. Metrô admite conteúdo 'inapropriado' e culpa emissora. Deputados reagem

Tadeu Breda, RBA

O governo do estado de São Paulo, responsável pelas redes de trens e metrô na capital e na região metropolitana, veiculou durante alguns dias entre fevereiro e março uma inserção publicitária na Rádio Transamérica em que afirma literalmente que vagões lotados, comuns durante o horário de pico no sistema metroferroviário paulista, são “bons para xavecar a mulherada”.

“Nos horários de pico, é normal trem e metrô ficar lotado. É assim também nas grandes metrópoles espalhadas pelo mundo”, diz o personagem Gavião, que se expressa com um falar característico da periferia paulistana. Além de promover o conformismo dos passageiros com a superlotação, o narrador ainda comemora o aperto diário nos vagões. “Pra falar a verdade, até gosto do trem lotado. É bom pra xavecar a mulherada, né, mano? Foi assim que eu conheci a Giscreusa.”

Apesar de não se referir a cifras financeiras, a inserção publicitária tinha como objetivo anunciar investimentos do governo do estado no sistema metroferroviário paulista. “Se você juntar hoje Metrô e CPTM, transportam todo dia 7,5 milhões de passageiros. É gente pra caramba, hein?”, contabiliza, e anuncia a construção do monotrilho. “E olha que ainda tem sete obras em andamento, que vão aumentar e deixar mais modernos os trens e as estações.”

Encoxadas

A notícia de que o governo do estado de São Paulo veiculou spot dizendo que trens lotados são bons para “xavecar a mulherada” aparece apenas algumas semanas depois que ganharam corpo na imprensa denúncias de assédio sexual contra mulheres no Metrô e na CPTM. De acordo com a Delegacia do Metropolitano, ao menos 23 pessoas foram vítimas de abusos nos trens e metrôs da Grande São Paulo em 2014. As práticas costumam ocorrer justamente em vagões lotados.

Alguns usuários do sistema também desenvolveram o hábito de filmar ou fotografar pernas e bustos de passageiras, produzindo imagens que posteriormente são colocadas nas redes sociais. Uma página no Facebook – “Encoxadores e encoxadoras”, retirada do ar há duas semanas – incentivava o assédio sexual no transporte público da cidade. Ontem (24) ao menos outras duas páginas, intituladas “Encoxada”, foram criadas na rede social, com fotos de mulheres, também propagandeando a prática. Esse tipo de abuso é também conhecido como “frotteurismo”, que vem do francês “frotteur”, que pode ser traduzido como “fricção”.

No dia 17 deste mês, um universitário foi preso por estupro depois de molestar uma passageira que viajava em um trem da Linha 7-Rubi da CPTM. O acusado segurou a vítima pelo braço e tentou arrancar suas calças. Antes de ser espancado pelos demais passageiros, colocou o pênis para fora e ejaculou nas pernas da mulher. Até na semana passada, ao menos 15 pessoas haviam sido presas acusadas de abusos contra passageiras no transporte coletivo de São Paulo apenas em 2014.

'Inapropriado'

Procurada pela RBA, a assessoria de imprensa da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) afirmou que não tem qualquer responsabilidade sobre o spot publicitário, e afirmou que o conteúdo foi preparado pelo Metrô. À reportagem, o Metrô admitiu, em nota, que o conteúdo da propaganda é “totalmente inapropriado” e colocou a responsabilidade por sua veiculação sobre a Rádio Transamérica.

“Assim que tomou conhecimento do referido comercial, totalmente inapropriado, o Metrô consultou a agência responsável pela publicidade e foi informado de que seu conteúdo não só estava em desacordo com o briefing passado como também não fora aprovado – nem pela agência tampouco pelo Metrô.” O Metrô diz ainda que advertiu a Rádio Transamérica, que então “tirou o comercial do ar e informou que a produção desse infeliz comercial é de sua inteira responsabilidade”.

Procurada pela RBA, a assessoria de imprensa da Rádio Transamérica afirmou que está “apurando responsabilidades” sobre a veiculação da propaganda com seus próprios funcionários e com a agência de publicidade que intermediou a relação entre a emissora e o governo do estado. Por isso, não comentou as acusações do Metrô.

Contudo, a Transamérica argumenou que o personagem Gavião, narrador do spot, é caricato e humorístico. “O testemunhal amplamente apontado tem o exclusivo intuito de entreter e divertir o público.” Em nota, disse ainda que “em nenhum momento o texto incentiva atitudes lascivas, pois de forma alguma faz qualquer alusão a qualquer tipo de violência ou abuso sexual”.

Ao empregar o termo “xavecar a mulherada”, continua o texto, o personagem “se refere única e exclusivamente à paquera, conduta licita que acontece naturalmente em qualquer lugar com grande circulação de pessoas”. Por fim, a rádio lamenta que o spot tenha sido veiculado concomitantemente com as ocorrências de abusos sexuais e atentados ao pudor ocorridos no transporte público, “fato absolutamente condenável com o qual a emissora jamais seria complacente.”

Representação

A propaganda irritou dois parlamentares do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo. Os deputados estaduais Luiz Cláudio Marcolino e Alencar Santana protocolaram ontem (24) na promotoria de Justiça de Direitos Humanos do Ministério Público uma representação contra o secretário da Casa Civil, Edson Aparecido, e contra os diretores da CPTM, Mário Manoel Seabra, e do Metrô, Luiz Antonio Carvalho Pacheco.

“Não bastasse todo o sofrimento vivenciado pelas mulheres no transporte coletivo, o governo do estado de São Paulo, além da omissão em razão de não assegurar um transporte público digno que garanta a tranquilidade e preservação do direito básico da mulher de não ter seu corpo usado como instrumento da satisfação da lascívia masculina, ao contrário, promove uma campanha publicitária que em nada contribui para a mudança desse estado de coisas e reforça a cultura machista”, diz a representação.

Para os deputados, a publicidade do governo do estado reforça a cultura machista da cantada e da abordagem agressiva das mulheres, banaliza a violência sofrida cotidianamente por elas, contribui para a legitimação da violência sexista e reforça a visão da mulher como objeto passivo do desejo do homem e de que seu corpo é público, por isso pode ser alvo de cantada e de xaveco."
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
Revista- WMB

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1 comentários:

Leoni disse...

Vagões do Metrô, Trens suburbanos e Monotrilho têm cada vez menos assentos.

Está cada vez mais difícil viajar sentado nos trens em São Paulo e no Rio. E isso não é só por causa da crescente superlotação do sistema. Dados obtidos por meio da Lei de Acesso a Informação, mostram que os veículos das frotas modernizadas e as composições novas têm sido entregues com cerca de 100 assentos a menos do que os equipamentos antigos.

Esta foi á solução encontrada pelos dirigentes para se aumentar a capacidade do sistema. Nos anos 1980 - segunda década de funcionamento das linhas da companhia, as composições da frota “C” da Linha 3-Vermelha possuíam 368 bancos. Algumas destas ainda rodam naquele ramal. No fim do decênio seguinte, os trens recém-adquiridos para a Linha 2-Verde passaram a apresentar 274 assentos, em um lote que recebeu o batismo de frota ”E”.

Atualmente, a quantidade de vagas para os passageiros se acomodarem caiu ainda mais. Por exemplo, quem andar em um veículo da frota “K”, modernizada nos últimos três anos, terá de disputar um dos 264 lugares disponíveis. Chama a atenção o fato de que esses trens, antes de serem reformados e rebatizados, pertenciam à antiga frota “C” com 368. Ou seja, possuíam 104 assentos a mais, com os mesmos comprimentos e larguras dos vagões redefinidos, sendo que as vagas do Monotrilho Linha 15-Prata em testes, não passam de 120, a menor de todos.

Embora o Metrô-SP, não admita oficialmente, a redução dos bancos em seus trens tem o objetivo de permitir a acomodação de um número maior de pessoas em pé, desafogando mais rápido as plataformas superlotadas das estações durante os horários de pico.

A superlotação também é uma consequência de sucessivas obras atrasadas, projetos equivocados e prioridades invertidas, e os novos trens são produto de compra, e não de demonstração de capacidade gerencial da empresa que não seja a de comprar.

Estações são reformadas, e mesmo refeitas, mas nelas nada se vê de inovador - nem na arquitetura (que já foi melhor), e nem na funcionalidade.

CONCLUSÃO;
“PARA O METRÔ E CPTM, MODERNIZAR E AMPLIAR CAPACIDADE SÃO SINÔNIMOS DE SUBTRAIR ASSENTOS”.
É o que se pode deduzir pelas atitudes.

Assim como já acontece aqui e no mundo com os ônibus e aviões, o Brasil precisa conhecer e implantar o sistema "double decker" dois andares para trens.

ANÁLISE TÉCNICA;
As prioridades nunca têm levado em consideração o conforto dos usuários. "O planejamento e dimensionamento deveria ser feito para atender à demanda no horário de pico, porém na prática não é isto que ocorre”.

Proponho um sistema de Trens de dois andares com altíssima capacidade de demanda 60% maior que os atuais em apoio à Linha 11-Coral da CPTM, para aliviá-la nos horários de ponta. "Esses trens “double decker” utilizariam a mesma linha e na mesma frequência, e aumentaria o número de passageiros que viajariam sentados."

É prioritário e fundamental para implantação das composições de dois andares até a Barra Funda, reformar e ampliar as Estações da Mooca e Água Branca, readequar a Júlio Prestes e construir a do Bom Retiro (que englobariam as seis linhas existentes além dos futuros trens regionais). Tal atitude beneficiaria “todas” as linhas metrô- ferroviárias, e descentralizaria e descongestionaria a Luz.
Seria uma decisão sensata, racional, e correta porque falar em conforto para uns e outros irem esmagados não tem o menor sentido. Além de se evitar um risco maior, seria uma forma de aliviar este "processo crônico de superlotação”.
IDOSOS;
A Linha 5-Lilás, na zona sul, foi inaugurada em 2002 com trens de 272 lugares. A futura frota que será comprada para circular no ramal, que está sendo expandido para receber mais passageiros, registrará, em cada composição, 236 bancos, a menor quantidade entre todos os veículos do Metrô, com exceção do Monotrilho que tem 120.