Crise da água em São Paulo não é mais falta de chuva, é o colapso do Sistema Cantareira

Fernando Brito, Tijolaço 

"Termina o mês de março e, felizmente para São Paulo, a chuva voltou com força.

No site do Climatempo eu peguei este gráfico aí de cima, mostrando que a média de chuvas de março, até ontem, já havia sido superada.
 E por que, então, o Cantareira não pára de baixar, tendo atingido hoje meros 13,1%  do total, que a Sabesp apresenta como 13,4%, porque conta o pequeno Juqueri (Paiva Castro), que é apenas um poço de bombeamento.

Mas porque está acontecendo isso: mais chuva e menos água?

É porque o Cantareira não funciona mais como um sistema.

A ideia central de um sistema integrado é utilizar o potencial conjunto da reserva para manter suas unidades equilibradas.

E Cantareira, deliberadamente, não funciona mais assim.

A Sabesp está “juntando” toda água possível no Reservatório Atibainha em lugar de mantê-lo num nível mais baixo e preservar as condições operacionais do Jaguari-Jacareí, o maior dos reservatórios, já sofre o fenômeno hidráulico de perda de carga. Isso quer dizer que seu túnel de escoamento não pode mais operar em capacidade máxima e, antes que essa capacidade se esgote, toda a água possível está sendo levada para o Atibainha, onde estão sendo instaladas as bombas.

De 1° a 31 de março, o Jaguari-Jacareí caiu de 11,68%, para 6,19% de sua capacidade. Perdeu 40 bilhões de litros de água, 25 dias de consumo da Grande SP.

No mesmo intervalo, o Atibainha, que será drenado, passou de 41,8% para 54,5% de sua capacidade. Este ganho de pouco mais de 12% representam mais 11,7 milhões de litros de água, algo como mais de sete dias de água.
O sistema, portanto, teve uma perda de 18 dias de reserva, porque as variações dos outros reservatórios são inexpressivas.

Os outros 13 dias foram supridos pelas chuvas abundantes, que somaram 193 mm, enquanto em março de 2013 atingiram apenas 133 mm.

O nível do sistema, em 2014, com mais chuva, caiu de 16,6% para 13,4%. E em 2013, com 30% menos de chuva, subiu 5,1% no mesmo período.

E isso sem o corte no fornecimento feito ao longo deste março e a transferência de parte da região servida pelo sistema para o abastecimento por outros reservatórios.

Há vários fatores para explicar isso, desde a temperatura mais alta, o déficit hídrico do solo, a perda de cobertura vegetal e o nível baixo dos reservatórios aumentando a absorção das áreas superficialmente ressecadas e a evaporação.

Como o gráfico mostra, também, que o problema poderia ter sido previsto desde meados do ano passado.

São Paulo está numa corrida contra o tempo até as bombas de recalque funcionarem.

Dependendo das chuvas, e da capacidade do túnel do Jaguari-Jacareí operar, tem entre 80 e 120 dias de água.

Então começará outra, esperando a volta das chuvas em novembro/dezembro.
E uma corrida maluca, como um maratonista que quer dar tudo de si  nos primeiros oito ou dez quilômetros.

Vai chegar ao final com a língua de fora. Se chegar, é claro…

E a linha de chegada é a eleição, em nome da qual Alckmin evita o que teria a obrigação de fazer, estabelecer um racionamento.

PS. Tudo o que digo aqui foi confirmado na edição da Folha desta terça-feira, pelo Professor Antonio Carlos Zuffo, da Engenharia da Unicamp. Mas o jornal não achou relevante a informação e a colocou lá no final da matéria. Leia:

“Pela situação do Cantareira, deveríamos estar em rodízio desde dezembro. Esperou-se pela chuva e ela não veio”, afirmou Antonio Carlos Zuffo, professor de engenharia da Unicamp.

Ele diz que a única chance de evitar o desabastecimento da região é bombear a água do fundo dos reservatórios, o volume morto, obra que só deve ficar pronta no fim de junho.

“Qualquer coisa que atrasar essa obra uma ou duas semanas, parte da Grande São Paulo vai ficar sem água.”

Se não chover acima da média, estima Zuffo, o nível do Cantareira chegará a zero até dia 26 de junho.

87 dias, portanto."
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Revista- WMB

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