A abordagem da crise hídrica paulista pela imprensa


Sergio Reis, GGN


"Acho que esta notícia abaixo, produzida pelo Estadão, está, por enquanto, com a medalha de ouro nos quesitos "coleção de falácias" e "assessoria de imprensa gratuita ao Governador" desde que comecei a acompanhar a crise da água em São Paulo. Vale ler e fazer alguns comentários ao longo do texto. 

A notícia


Alckmin: Campanha de economia de água será permanente
Araçatuba - Satisfeito com os resultados apresentados pela população, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, afirmou nesta quarta-feira que a campanha para economia no consumo de água deverá ser mantida pelo seu governo mesmo que volte a chover e a situação se normalize nos reservatórios de armazenamento de água.

Comentário 1: Então quer dizer que quem apresenta "resultados" na crise da água é a população? É o governador que avalia o comportamento dos cidadãos, e não o contrário? É ele que fica satisfeito com o povo, e não o contrário?

Alckmin garantiu que a capital paulista não deverá ter problemas de abastecimento de água e que o Sistema Alto Tietê conseguirá atender o consumo da Região Metropolitana até o fim da estiagem devido aos investimentos para aumentar a oferta de água feitos pelo seu governo.
"Pretendemos manter essa campanha do uso racional da água em caráter permanente, pois entendo que essa cultura de economizar, não só a água, mas também a energia elétrica, deva ser permanente", afirmou Alckmin, durante visita a Araçatuba, onde entregou o Hospital do Rim e anunciou repasses complementarias para hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Comentário 2Claro que existe uma necessidade, em nome da sustentabilidade ambiental, de pensarmos em como melhor aproveitarmos os recursos hídricos, de forma fazermos um uso mais consciente dos recursos naturais, dada a sua finitude. Mas realmente Alckmin quer fazer acreditar que é a redução do consumo de água pela população (civil, individual) a responsável pelo eventual "salvamento" das represas, quando essa economia sabidamente representa menos de 2 metros cúbicos por segundo e, na realidade, é o Grupo Técnico de Acompanhamento do Cantareira o responsável, a cada 15 dias, por determinar qual é o limite de retirada diário de água - que era de até 36 m3/s antes da crise e agora está em cerca de 22 m3/s, redução já classificada como típica de racionamento? Realmente ele quer efetivar uma prática de responsabilizar a população - para o bem ou para o mal - pelo futuro dos sistemas de abastecimento de água? Não bastou culpar São Pedro pela crise?

Alckmin lembrou que a população entendeu a campanha por isso acha desnecessária qualquer tentativa de aplicar multa aos que desperdiçarem água. "Tivemos uma redução fantástica no consumo. 91% dos moradores aderiram. É impressionante uma adesão como essa e eu só tenho de agradecer à população", disse. Questionado da possibilidade de se aplicar multa a quem desperdiça, Alckmin disse: "A questão da multa e da Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo), que é quem deve decidir, mas acho que pela demonstração dada pela população, isso não será necessário", afirmou.

Comentário 3: O tom da matéria é de um paternalismo atroz. Nos dizeres do texto, a população "entendeu a campanha (de redução do consumo de água)". A meu ver, trata-se de um a daquelas falas motivacionais baratas do tipo "nós vamos conseguir", quando no fundo as responsabilidades e os problemas estão postos em um nível muito mais denso e profundo. Mais do que isso, expressa uma falsa modéstia, quase populista, para com os "súditos". Afinal, a ideia de agradecer à população dá a ideia de que ela lhe prestou um favor, como se no fundo fosse incapaz de entender o que é que estava em jogo, e que apenas ele, o governador, é dotado de um senso republicano superior. É uma fala de uma infelicidade incrível por sua falta de sensibilidade.

Comentário 4:  Alckmin mudou de ideia com relação às multas? Ele lutou meses por isso, no auge do desespero inicial com a seca do Cantareira, dando a decisão pela punição como óbvia e necessária. O Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) já tinha avisado que a medida era ilegal, e ainda assim ele queria prosseguir, apesar de posicionamentos em contrário até mesmo da Agência Nacional de Águas. Agora não só diz que é desnecessária, como ainda comenta que não é da competência dele, o que é um completo absurdo. Alckmin muda seus discursos como troca de roupas, conforme o sabor do momento. E surfa, inexpugnável.

O governador lembrou que seu governo teve 74 dias para contornar o problema. "Conseguimos disponibilizar neste período 182 milhões de metros cúbicos de reserva técnica do Cantareira e garantimos o abastecimento", afirmou. Segundo ele, a população pode ficar tranquila porque não vai haver desabastecimento até o fim da estiagem. "Estamos trabalhando para manter o abastecimento até o fim da seca", disse.

Comentário 5Esse é um dos auges do texto em sua modalidade "imprensa oficial", já que não apresenta qualquer questionamento à fala do governador. Alckmin transforma um dos improvisos mais bisonhos da história da engenharia paulista em  feito magistral, em espetáculo de gestão. Tem coragem, ainda, de afirmar que seu governo teve 2 meses e meio para lidar com a crise. Como pode ter coragem de afirmar isso se até o cidadão mais desavisado sabe que seu partido ocupa o poder no Estado há 20 anos? Meu palpite: só faz uma afirmação desse nível de cinismo quem efetivamente acredita que não sofrerá pressão dos meios de comunicação, do controle social e dos adversários políticos. É um testemunho quase inimputável, tamanha a sua desconexão com a realidade.

Segundo Alckmin, investimentos feitos nos reservatórios do Sistema Alto Tietê garantem a oferta de água para a população. "Fizemos dois investimentos, o primeiro, pela Sabesp, que aumentou a oferta de água de 5 metros cúbicos por segundo para 10 metros cúbicos por segundo; e outro, uma Parceria-Público-Privada (PPP), a primeira de saneamento do País, aumentando de 10 para 15 metros cúbicos por segundo", disse. "Foram investimentos que aumentaram em muito a capacidade de 'reservação' e de produção de água das represas do Alto Tietê", afirmou.

Comentário 6: Finalizando a notícia-press-release, Alckmin traz feitos de vários anos atrás -  e que são colocados pela reportagem como ações tempestivas e recentes para lidar com a crise atual , inclusive no tempo verbal "presente" - para mostrar que seu governo está absolutamente preparado para a crise do Alto Tietê. O problema é que a obra mais recente, a PPP de Taiaçupeba, é de 2011 (após uma série de problemas nas licitações, que começaram em 2006), e as barragens de Biritiba-Mirim e Paraitinga foram concluídas em 2005. Nada foi feito após isso. Aliás, talvez tenham sido as únicas obras com mais envergadura ao longo dos últimos 10 anos. Elas aumentaram a capacidade de produção do ssistema s para a região metropolitana em cerca de 10 metros cúbicos por segundo. O problema é que a demanda anual tem crescido, em média, em 2 metros cúbicos por segundo.  É  claro, portanto, que esse aumento da capacidade do Alto Tietê foi mais do que compensado pela  expansão do seu uso pelos cidadãos. Mas, obviamente, enquanto peça quase publicitária, nenhum a dessas questões foi abordada.  Falando o que quiser e sem qualquer contestação, Alckmin nada de braçada em meio a uma mídia subserviente, omissa e despreparada. O caos é transformado em excelência, o controle social é subvertido para se tornar  "controle por sobre a sociedade" (a mixórdia faz ainda mais sentido quando comparamos, em inglês, os termos "accountability" e "social control", que dizem respeito a concepções completamente diferentes no que se refere à relação entre gestão pública e democracia). Até quando?"
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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