Civilizador, Haddad encara e vence os bárbaros


"Dois anos após se eleger prefeito da maior cidade do País, Fernando Haddad experimenta uma típica volta por cima; ataques físicos e retóricos da primeira parte da gestão são trocados agora por pesquisas que mostram aprovação popular maciça à sua estratégia de mobilidade urbana e depreciações circunscritas ao atraso ideológico e compromissos comerciais da mídia tradicional; “Com 90% da população ao meu lado, ninguém me convence de que estou errado”, cravou Haddad à revista Brasil 24/7; “Meus adversários estão no passado. Eu projeto o futuro”

Marco Damiani, Brasil 247

Desde que assumiu a Prefeitura da maior cidade do País, dois anos atrás, Fernando Haddad tem sido teimoso. Ele sofreu com a depredação da sede municipal por vândalos ao completar seis meses no poder, foi depreciado por colunistas da mídia tradicional e perdeu mais de R$ 5 bilhões em receitas municipais vítima de manobras diversas. Mas a hora de Haddad dar a volta por cima chegou. Exatamente por sua teimosia.
 
- Ninguém nunca me convenceu de que eu não tenho a estratégia certa para a cidade porque desde o início a população entendeu e aprovou maciçamente o meu plano, disse o prefeito à Revista 247, logo após autorizar o acesso de táxis às faixas exclusivas de ônibus. 

Primeiro, Haddad foi fiel aos seus votos. Em 2012, ele derrotou José Serra, do PSDB, em segundo turno, com um plano de 100 metas para a cidade.

- Não estou fazendo nada diferente do que foi aprovado nas urnas pela população. Quem não gostar deve esperar a próxima eleição e apresentar seu próprio programa de governo. O meu, eu estou executando, continua ele.

Numa cidade que já idolatrou o histriônico Jânio Quadros, elegeu o expansivo Paulo Maluf e teve em Serra um executivo que admitia não gostar de ser prefeito, contar agora com Haddad é uma experiência inovadora. 

- Eu não acho que um prefeito tenha de sair por aí de galochas e guarda-chuvas para mostrar que trabalha contra os efeitos das chuvas, dizia ele logo no início da gestão.

- O importante é planejar, fazer obras e atacar de fato os problemas, não fazer marketing. 

Logo após assumir o cargo, o prefeito sofreu uma série de revezes, cujo fato negativo mais marcante foi a depredação da sede da Prefeitura, em junho do ano passado, durante manifestações de protesto. No final do ano, viu o então presidente da Fiesp, Paulo Skaf, comandar uma campanha bem sucedida contra o reajuste do IPTU – principal fonte de arrecadação do munícipio. Ao mesmo, os tribunais retiraram de São Paulo uma série de repasses de verbas que, no total, implicaram numa receita cerca de R$ 5 bilhões menor que a esperada inicialmente.

Haddad não deixou de passar recibo pelas perdas, deixando claro que haveria prejuízos:

- Vamos ter mais dificuldades para implementar nosso plano, porque sem dinheiro teremos de cortar em algum lado, não há mágica que resolva isso, declarou ele diante das inesperadas dificuldades financeiras.

O prefeito, que todos os dias despacha com pelos menos quatro secretários municipais diretamente e vai se acostumando a visitar bairros todas as manhãs, não se abateu. Ele readequou as metas do programa de governo e fez foco em seu plano de mobilidade urbana. Para sorte da maior cidade do País, da adversidade acelerou-se a solução.

Procurando alternativas relativamente baratas de ampliar a mobilidade urbana, a gestão de Haddad já exibe a instalação de 400 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus. Nas seguidas medições de desempenho desse modelo de privilégio ao transporte coletivo, a Prefeitura descobriu que a velocidade média dos coletivos, com as faixas exclusivas, aumentou 45,1%, saltando de 14,2 km/h para 20,6 Km/h. Um segundo levantamento, divulgado no início de setembro, mostrou que a velocidade média dos ônibus que circulam por 66 trechos de faixas exclusivas implantados neste ano aumentou em 68,7%, passando de 12,4 Km/h para 20,8 Km/h. A economia média passou a ser de 38 minutos por dia, chegando a mais de quatro horas por semana. 

Para melhorar o sistema de circulação de ônibus, porém, Haddad sofreu com chacotas e difamações. Os comentários espalhados pelas redes sociais davam conta que ele governava apenas com uma lata de tinta nas mãos. E que, com ela, queria pintar toda a cidade de vermelho, cor, como se sabe, de seu partido, o PT. Em emissoras de rádio de grande audiência foi atacado como responsável pelos aumentos de congestionamentos na capital que, de resto, sempre existiram.

- A classe média vai perceber que o investimento no transporte coletivo também é bom para ela, amenizou o prefeito.

Hoje, pesquisas indicam que nada menos que 90% da população paulista, segundo o instituto Datafolha, reconhecem que as faixas de ônibus são extremamente positivas para a cidade. Ao mesmo tempo, o prefeito que viu sua popularidade baixar ao longo de todo o primeiro ano de governo atingir um ponto de inflexão e passar a subir.

A administração municipal já chega à sofisticação de instalar leitores ópticos em pontos de ônibus, para que, com auxílio de um celular, os usuários possam ter informações sobre itinerários e horários. Já estão em operação 200 ônibus com ar condicionado - equipamento móvel com que São Paulo nunca contou, e dois novos grande terminais estão em construção, para a utilização por cerca de 500 mil pessoas. Outros dez passam por reformas de modernização.

No início do mês passado, apoiado nos bons resultados das faixas exclusivas, o prefeito autorizou o acesso de taxis a elas. Ganhou, na categoria, um apoio político que não conhecia. 

- Peço aos companheiros, a partir de agora, que parem de falar mal do prefeito para o seus passageiros. Ele nos atendeu, saudou o antigo líder sindical da categoria, Natalício Bezerra, em cerimônia com Haddad presente. Uma admissão de que, antes da medida, os taxistas eram sim adversários poderosos do prefeito, em contato direto com a população. 

Neste momento, a peleja de Haddad é pela implantação dos primeiros 100 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas em São Paulo:

- A Prefeitura não tem noção do que está fazendo, é erro sobre erro, atacou o colunista Reinaldo Azevedo, da revista Veja, jornal Folha de S. Paulo e rádio Jovem Pan.

- Isso era esperado. A elite e seus porta-vozes custam a entender que o que é bom para a cidade e o povo também é bom para ela, devolveu Haddad. 

- Estamos combatendo esse atraso, mas em setores radicalmente ideologizados não há mesmo como travar uma discussão séria, frisou o prefeito.

AVANÇO CIVILIZATÓRIO - Ele já tem números que atestam que a iniciativa de favorecer a circulação de bicicletas na capital é mesmo um avanço civilizatório para São Paulo. Este ano, a Prefeitura implantou 78,3 km quilômetros de ciclofaixas, com a meta de fechar 2014 com 200 quilômetros implementados. Até o final de setembro, a cidade vai ganhar mais 64,5 quilômetros e atingir 109,4 quilômetros de vias segregadas exclusivamente para o deslocamento de ciclistas. Enquanto o levantamento de 2013 estimou que cerca de 174,1 mil moradores da cidade usavam a bicicleta diariamente, neste ano o número passou para aproximadamente 261 mil.

No lado das coisas que ‘não aparecem’, a Prefeitura paulistana está atacando a questão do lixo. Apesar de os últimos prefeitos se considerarem políticos competentes e realizadores, o certo é que nem 2% de todo o lixo da maior cidade da América Latina era atingido por sistemas de coleta seletiva e podia ser reciclado. Com Haddad, em articulação entre cooperativas de catadores de lixo e o sistema oficial da municipalidade, essa situação começou a mudar. 

Por R$ 15 milhões, o prefeito mandou trazer da Franca, da Alemanha e da Espanha equipamentos que, unidos, deram a São Paulo as duas maiores centrais mecanizadas de processamento de lixo da América Latina. Outras deverão ser instaladas até o próximo ano. O prefeito trabalho com a meta de que, ao final de 2016, São Paulo terá 10% do lixo que produz em condições de ser reciclado.

Na semana passada, em acordo de R$ 63 milhões com o Jockey Club, referendado pela Justiça, a Prefeitura perdoou dívida de IPTU da entidade em troca de tomar posse da área de 160 mil metros quadrados, na zona sul, conhecida como Chácara do Jockey. No mesmo modelo, agregou o antigo, e que estava abandonado, clube Tietê aos parques abertos da cidade, com 19 mil metros quadrados de áreas livres, três quadras de tênis e cinco ginásios. 

O que era um equipamento esquecido foi resgatado como uma área esportiva aberta das 7h00 às 23h00. Até o final, respeitando uma das vocações da juventude paulistana, Haddad entregará, ali, uma pista de skate de 3 mil metros quadrados.

À frente de uma máquina que sempre foi conhecida pela corrupção entranhada, Haddad foi o primeiro prefeito a criar uma corregedoria interna, com amplos poderes para investigar e punir. Após pouco mais de um ano de funcionamento, cerca de 100 servidores municipais foram afastados – e, na operação inaugural, descobriu-se que uma máfia de aprovação de edifícios atuava às soltas entre os primeiros escalões das secretarias.

Este ano, talvez em sua maior vitória contra o atraso, Haddad conseguiu aprovar o Plano Diretor que preserva áreas verdes, salva bairros inteiros da destruição pela especulação imobiliária e dá incentivos aos construtores que façam obras que ‘conversem’ com a cidade, isto é, que possam ser usadas, no piso térreo, pelos munícipes.

Por estas e outras, o prefeito está colhendo uma alta nas aprovações à sua gestão. Os índices ainda são baixos, com pouco mais de 20% de soma de ótimo e bom, mas já é mais do que ele teve inicialmente. Visto por auxiliares como um ‘homem da nova política", Haddad não se abala:

- Temos um plano aprovado pelos eleitores e não nos afastamos dele. Os resultados estão aparecendo, o retorno está melhorando. Não há segredo nisso: trabalhar para a maioria da população, em lugar de temer nichos e as torcidas organizadas do atraso, funciona, assinala o prefeito.

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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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