Demônios


Por Daniel Afonso da Silva, GGN -

Era uma terça-feira francesa de verão. O cotidiano ordinário já era estival. As grandes férias haviam começado. Falta uma semana para o mês de agosto.

Estamos no 26 de julho de 2016. As grandes cidades estão aos turistas. Os citadinos – com renda e condições – partiram para voltar no fim do verão. As cidades menores, as vilas e os povoados assistem alguma agitação. Estrangeiros – inclusive gente das grandes cidades e da capital – programam lhas visitar.

Querem o conforto do rústico e o silêncio do modesto que os interioranos, “les terroirs”, conhecem magistralmente bem.

Querem esse conforto e silêncio pois ninguém passa indiferente às dificuldades. Desde muito que os verões na França e na Europa viraram momento de meditação. Os impasses são protuberantes. Alguns, intransponíveis. O desespero vem sendo a marca das demais estações.

Nos últimos dez, quinze anos, o cansaço coletivo virou padrão. A impotência diante das crises virou norma. O “no sabemos lo que nos pasa, y esto es precisamente lo que nos pasa, no saber lo que nos pasa” de José Ortega y Gasset jamais esteve tão verdadeiro. Crises – financeira, econômica, social, política, institucional, moral, cultural, identitária, imigratória, demográfica, ambiental etc. – deixaram de ocorrer isoladamente para acontecer ao mesmo tempo e em todos os lugares.

Era uma terça-feira francesa de verão. As cenas inexpugnáveis da matança do 14 de julho em Nice ainda saturavam imaginações. Todos sabiam de Mohamed Lahouaiej Bouhlel com seu caminhão. Todos sentiam que aquela fúria ferira o coração de toda uma civilização.

Ser ou não ser Charlie ficou irrelevante diante dos monstros no Bataclan. Mas aquele caminhão evidenciou que tudo poderia ser ainda muito pior.
A audácia dos terroristas deixou de ter fim. O medo dos inocentes também.

Jacques Hamel era um senhor de 86 anos. Como profissão, exercia sua vocação: era padre, era católico, era fiel. Seu domicílio era no interior do país; no interior da Normandia; nos arrabaldes de Rouen; no povoado de Saint-Étienne-du Rouvray.

Saint-Étienne-du Rouvray dispõe de 28 mil habitantes. Todos conhecem todos. E todos conheciam o padre Jacques Hamel.

Era uma terça-feira francesa de verão em Saint-Étienne-du Rouvray. O padre Jacques Hamel fazia o que seu ofício impunha fazer: rezava. Rezava na companhia de fiéis. Eram 9h da manhã. Pouco mais ou menos. O clima era bom.

O tempo estava firme. Apenas bafejava algum vento sul.

Dois meliantes invadem a paróquia, quebram o silêncio da oração, interceptam o padre Jacques Hamel, imobilizam os fiéis e incendeiam o terror.

Jacques Hamel era um senhor de 86 anos e era um padre.

Esses moços tiveram a petulância e a indecência de enforcá-lo e degolá-lo.
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O Estado Islâmico reivindicou a ação.

Eles – o Estado Islâmico e seus simpatizantes – sabem o que se passa e sabem o que fazem.

Eles agem sem tabu, sem limite, sem moral e sem fronteira. E nos deixam todos sem palavras, sem ânimo... Resta saber até quando também sem reação.
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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