Operação contra terror no Brasil é “para mostrar que não temos corrupção e golpe”, diz xeique

Alexandre de Moraes cumprimenta José Serra pelo conjunto da obra
Por Kiko Nogueira, DCM -

Rodrigo Rodrigues é um gaúcho de 38 naturalizado e sacramentado paulistano.

Há duas semanas, foi hostilizado numa padaria perto de sua casa por um homem que o viu na TV.

Estava com a filha pequena. Do nada, um senhor o abordou e o ameaçou. Não seria a primeira vez e não será a última.

Rodrigo não é do PT. É um xeique muçulmano.

A cena ocorreu após a coletiva do ministro da Justiça Alexandre de Moraes dando conta do resultado da Operação Hashtag, que havia conseguido prender acusados de terrorismo em dez estados do Brasil.

“O ministro falou que os rapazes eram perigosos,  depois que eram amadores e que estava tudo em paz… A exposição deles e da comunidade muçulmana causou um grande transtorno para nós. Estamos sendo ofendidos”, diz.

“Eu e minha filha fomos xingados na fila, falaram que éramos da mesquita dos terroristas. Eu disse que não, que os terroristas estão em outros estados, em outra cidade”.

Rodrigues recebeu o DCM na TVT para uma entrevista. Ele é o líder da mesquita do Pari, uma das maiores do país. A oração da sexta-feira, a mais concorrida, recebe em média 1 200 fieis. O número é crescente, especialmente com a chegada de refugiados.

Rodrigues ganhou notoriedade porque dois frequentadores foram presos pela Polícia Federal. Mohamad Mounir Zakaria e Vitor Magalhães eram seus conhecidos. Segundo ele, nunca houve motivo para se desconfiar deles.

“A mídia agora está chamando essas pessoas de terroristas. Até onde sei, são pessoas normais, que frequentavam a mesquita como outros. Agora estamos esperando a Justiça concluir algo”, afirma.

“Na minha opinião, são jovens que acham que o que está ocorrendo na Síria e no Iraque é uma injustiça. Eles vão curtindo e compartilhando [posts de atentados]. Compartilhar atos de violência é apologia à violência.”

Para o xeique, a apresentação de Alexandre de Moraes teve outra motivação. “Tudo é montado para mostrar para a opinião pública que o Brasil está seguro, que não tem corrupção, violência e golpe”, diz.

“Jovens como eles querem chamar a atenção. Por isso, tiram fotos com fuzil em qualquer lugar. Nas favela, nos morros do Rio de Janeiro. É puro exibicionismo”, prossegue.

Kim Kataguiri também tirou retrato com um fuzil. “Se ele colocar nome árabe, vira terrorista imediatamente”, diz. “Existe um glamour de estar  combatendo um regime com uma arma. São jovens que não têm estrutura familiar, religiosa, uma opinião política formada…”

Rodrigues vê uma “comoção seletiva” quando ocorrem atentados no mundo: “As maiores vítimas do Estado Islâmico estão em países muçulmanos. Quando bombas caem na Faixa de Gaza, quando morrem centenas em países como o Afeganistão e o Iraque, a mídia não mostra como terrorismo”.

“A comunidade muçulmana é contra a atitude do EI, que não é um estado e nem islâmico, mas acabamos pagando uma fatura que não pedimos. O EI representa interesses internacionais”, declara.

“Faz parte da geopolítica ter um inimigo comum que destrua a estabilidade dos países muçulmanos, para justificar as guerras. Tem os americanos, os russos, o petróleo, o gás natural. É preciso ter um vilão pelo resto da vida para justificar invasões e agressões”.

“Os Estados Unidos fazem um jogo grande. Eles apoiam a Arábia Saudita no Iêmen contra o Irã e no Iraque eles apoiam  o Irã contra a Arábia Saudita”, diz.
Eis o programa do DCM com o xeique Rodrigues. A apresentação é de Marcelo Godoy e a direção de Max Alvim.

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