A mídia e o “Caesar Trump”


Por Fernando Brito, Tijolaço

O resultado eleitoral desta madrugada nos afeta, e muito, porque afeta o mundo, para o bem e para o mal.

Não pela “bagunça” que está e vai ocorrer no mercado financeiro, que se aprumará logo.

Mas por seu significado político para os EUA e para a compreensão da situação atual do Império.

Por isso, transcrevo o editorial do The New York Times, referência tão forte no pensamento da elite americana que seus textos opinativos são citados – contra e a favor – em quase todos os outros grandes jornais norte-americanos.

Não sem antes registrar a opinião, sempre lúcida, do professor Nílson Lage, um homem que pensa o mundo sem deixar por um segundo de ter olhar brasileiro.

A vitória de Donald Trump é, antes de mais nada, a derrota da mentira.
Armada de um fabuloso exército de marqueteiros, gatekeepers, especialistas em estatítisca, essa coisa brutal em que se tornou a mídia perdeu.
 
Nem pesquisas de opinião, nem a indústria da realidade virtual: parafraseando Churchill, podem cegar muita gente por muito tempo, mas não por todo tempo. .
 
Existe, sim, a realidade concreta. A insatisfação varria o país, visível a quem não usasse antolhos – até eu, que estou tão longe, ouvia o barulho dos dentes rangendo. Occupy e Tea Party não brotaram do nada e, à direita ou à esquerda, se uniriam um dia no interesse comum.

O texto do NYT dá ideia da perplexidade do establishment diante desta derrota e da cegueira bumerangue, que voltou aos olhos que a lançavam.


Presidente Donald Trump. Três palavras que eram impensáveis ​​a dezenas de milhões de norte-americanos – e grande parte do resto do mundo – tornaram-se agora o futuro dos Estados Unidos.

Tendo as elites republicanas se confundido nas primárias, o Sr. Trump fez o mesmo com os democratas na eleição geral, repetindo o movimento de judô de usar o peso de um establishment complacente com Hilçlary Clinton contra ela própria. Sua vitória é um golpe humilhante para a mídia, os pesquisadores e a liderança democrata dominada por Clinton.

Os candidatos ficaram “cabeça com cabeça” na votação popular, mas o Sr. Trump derrotou Hillary Clinton no Colégio Eleitoral.

Então, quem é o homem que será o 45° presidente?

Depois de um ano e meio de tweets erráticos e discursos incoerentes, não podemos ter certeza. Não sabemos como o Sr. Trump iria realizar funções básicas do Executivo. Nós não sabemos que conflitos financeiros ele pode ter, já que ele nunca abriu suas declarações de impostos, rompendo com 40 anos de tradição em ambos os partidos. Não sabemos se ele tem a capacidade de se concentrar em qualquer assunto e chegar a uma conclusão racional. Não sabemos se ele tem alguma ideia do que isso significa para controlar o maior arsenal nuclear do mundo.

Aqui está o que sabemos: Nós sabemos que o Sr. Trump é o presidente eleito mais despreparado na história moderna. Sabemos que por palavras e ações, ele tem se mostrado temperamento impróprio para liderar uma nação diversificada de 320 milhões de pessoas. Nós sabemos que ele ameaçou processar e encarcerar seus adversários políticos, e ele disse que iria restringir a liberdade de imprensa. Sabemos que ele não tem remorsos.

Ele disse que pretende reduzir os impostos para os ricos e para retirar a proteção de saúde do Affordable Care Act de dezenas de milhões de americanos. Ele insultou mulheres e ameaçou os muçulmanos e imigrantes, e recrutou como seus aliados uma combinação obscura de racistas, supremacistas brancos e anti-semitas. Dada a importância da “direita-alternativa ” de origem do Sr. Trump, talvez seja a hora de largar (a tecla) “alt”. David Duke (der racista, em chefe da Ku-Klux Klan) comemorou a vitória do Sr. Trump na terça-feira à noite, no Tweeter: “É hora de trazer de volta a América !!!”

Quando o Sr. Trump olha além das nossas fronteiras, ele disse que iria rasgar o acordo para impedir o Irã de construir armas nucleares e que ele iria acabar com o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio. Ele disse que iria repudiar acordo de Paris de dezembro passado sobre as mudanças climáticas, abandonando assim o papel de liderança da América em enfrentar a ameaça maior a longo prazo para a humanidade. Ele também ameaçou abandonar aliados da Otan e iniciar uma guerra comercial com a China.

Sabemos que, com os republicanos que controlam ambas as casas do Congresso, o Sr. Trump seria capaz de restaurar uma maioria de direita, preenchendo a sede da Suprema Corte que senadores republicanos retém por nove meses.

Republicanos em breve controlarão todos os ramos do governo federal, além de uma maioria de governadores e assembleias legislativas. Não há nenhuma verificação óbvia de impulsos vingativos de Trump. Outros líderes republicanos, incluindo seu companheiro de chapa, Mike Pence,viviam pedindo desculpas por seu comportamento mais extremo.

Ao desafiar todas as normas da política americana, o Sr. Trump abalou pela primeira vez o Partido Republicano e agora o Partido Democrata, que tentou uma “restauração Clinton” em um momento em que a nação estava impaciente para mudar. Misoginia e racismo desempenharam o seu papel em sua ascensão, mas também um desejo feroz ou até mesmo inconsciente pela mudança.

Mudança que colocou os Estados Unidos diante de um precipício.
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